Mulheres Que Inspiram - Diane Cossermelli


Capítulo 1 - A ceramista


Diane usando Regata Gaia Estampa Cacos

A - Como a cerâmica surgiu na sua vida?

D - Eu tinha uns 15 anos. Meu pai é médico e tinha um congresso no interior, acho que em Ourinhos. Enquanto o médico vai pro o congresso, a família fica passeando. Um dos passeios era uma olaria e vi um oleiro trabalhando no torno. Eu olhei aquilo e achei o máximo, aquela coisa aparecendo da mão do cara. E ai eu pensei "um dia eu faço isso".

E passou, fiz vestibular, passei na medicina, fiz doutorado, fazia pesquisa, nunca trabalhei em consultório, mas eu não estava feliz ali. Era um lugar que eu não queria ficar pro resto da minha vida, porque é uma coisa muito competitiva, eu não sei fazer política, eu sou muito “pá-pum” e já pensei “não, isso não vai dar certo”. Eu trabalhava com animais e não queria mais matar bicho, tava muito aflita, então eu resolvi sair, mas sem saber muito o que eu ia fazer.


A - Quanto tempo durou sua carreira na medicina?

D - Eu entrei na medicina em 77 com 17 anos, dois anos depois de ter visto o oleiro. Eu me formei em 82 e trabalhei na medicina até 94, foram 12 anos depois de formada. Quando eu saí, tirei uma licença.

Resolvi aproveitar e fazer cursos de coisas que eu tive interesse, mas não dava pra fazer, porque eu trabalhava em período integral e já tinha 3 filhos. Eu engravidei no sexto ano de faculdade, tive o primeiro logo depois de formada. Aí eu fui pra Alemanha, engravidei do segundo que nasceu em 86 e a Luísa nasceu em 90. Quando eu defendi a tese ela tinha 3 anos. A Luísa era pequenininha ainda e eu fui fazer um curso de tear e um curso de cerâmica porque ficou na minha cabeça aquela história do torno.

O primeiro curso foi de tear. Eu ficava super curiosa, queria entender aquela trama: como aquilo se fazia e como se faziam desenhos, texturas diferentes. Na época, tinha o ateliê do Renato Imbroisi, na rua dos Pinheiros. Eu fiz um pouco, 1 mês, 2 meses pra entender. Quando eu entendi finalmente o que era aquilo, comprei o meu tear. Eu sou bem autodidata, aprendo muito rápido. E depois de uns anos, comprei um tear de 4 quadros. Eu não sabia mexer nele, mas comprei livros, estudei e fiz funcionar. Eu fiz muita coisa, manta pra um monte de gente, dei aula disso no fim, porque eu sou xereta, me meto a fazer umas coisas. 

A cerâmica eu comecei a numa escola da Lica Cox, que era uma ceramista bastante conhecida aqui e fiz 1 ano de cerâmica lá. Eu fiz a primeira aula e fiquei louca. Tinha que arrumar mais um dia da minha vida pra fazer aquilo. Era como se tivesse muita coisa represada e eu precisava desovar isso de alguma forma. Então, eu acordava a noite, desenhava vasos, deixava já um caderninho ali porque eu começava a ter ideias, tinha que fazer aquilo de qualquer jeito. Uma amiga me recomendou o ateliê da Rosana Mariotto, que era pertinho da minha casa. Ela era professora de cerâmica de faculdade e professora de artes. Ela fazia só baixa temperatura, mas a gente começou a trabalhar juntas em alta. Ela me abriu um espaço não só pra ter aula, me ensinou um monte de coisa, como grudar tudo, fazer rolinhos, mas também a gente fazia muitas experiências juntas, então foi uma coisa muito legal pra mim. Eu criei os meus próprios esmaltes, comecei a experimentar desde o começo, enquanto que na Lica eu ficava mais treinando o torno e fazia uma peça ou outra manualmente. A Lica tinha um ateliê muito estruturado: a sala do esmalte, vários fornos, um forno a gás grande. Era num cortiço, passava como se fosse uma rua no meio, tinham uns janelões de madeira com vidro, muito verde. Era lindo o lugar, muito legal. Foi um exemplo de ateliê que ficou sempre marcado pra mim.

Quando eu fui montar o meu, foi a coisa mais fácil do mundo, eu sabia exatamente o que tinha que fazer. Eu me apaixonei muito por cerâmica, foi uma coisa muito séria. Eu comecei a fazer peça, peça, peça e minha estante ficou lotada. Eu tinha um torno no apartamento, no escritório, por sorte eu não faço muita meleca. Daí levava as peças pra queimar nos lugares, então era um trampo, um terror. Depois eu saí do apartamento e mudei pra cá (casa onde é o Terra W) e consegui realmente montar o ateliê, ter um forno, uma coisa mais estruturada onde eu pudesse fazer o processo todo em um lugar só.

 Diane usando Vestido Poema

 

 

A - Como você divulgava seu trabalho naquela época que não tinha instagram, whatsapp?

D - Divulgava nada, vendia só pra quem era muito próximo. Na nova casa, eu fazia bazares mais pros amigos, então eles vinham e vendia. Além de ser aquela novidade, a médica que virou ceramista (risos). Porque tem toda uma lenda em volta, as pessoas ficam muito chocadas com mudanças na vida das outras pessoas. Eu me lembro que muitas vezes eu ia em festas e as pessoas me olhavam assim e no fim da festa vinham me falar “se eu soubesse fazer qualquer coisa, eu largava a medicina também”. Era muito engraçado.


A - Como veio a vontade de dar aulas?

D - Vontade, vontade não teve. As pessoas vinham e falava “eu quero ter aula”, mais amigos no começo. Comecei a ter alunos, um foi chamando o outro, mas sempre foi uma coisa muito pequena, e aos poucos foi aumentando, mas não era uma coisa que me sustentasse, de jeito nenhum. E venda de peças também não, porque era na minha casa, não tinha placa e não ficava aberto pra rua, então era um negócio que vendia muito pouco. 


A - Quando você começou a vender as primeiras peças?

D - Isso foi em 95, foi logo depois que eu comecei. 95 e 96 eu já tinha um monte de peça.


A - Hoje em dia a cerâmica é uma febre, como era naquela época?

D - Ninguém gostava, era visto como rústico, as pessoas diziam “eu vou levar pra minha casa de campo, pra praia”. Não era como hoje em dia que qualquer restaurante um pouco mais refinado só tem peça de cerâmica. A valorização do feito a mão é muito recente, tem uns 3 ou 4 anos que a gente começou a sentir pesado isso.

Eu dava aula sozinha em várias turmas e tive que chamar gente pra me ajudar, virou uma loucura a minha vida. Agora que eu tenho mais gente trabalhando, comecei a entender que eu posso desacelerar. Mas  ainda tenho resquícios de tá cheia daquilo, de tá exausta, porque foi muito desgaste por muitos anos e sem um retorno financeiro, porque não era como é hoje, que tem um número de alunos que sustentam o ateliê.


A - Hoje você considera que tem um retorno financeiro legal?

D - Tenho, básico. Eu consigo pagar todo mundo que trabalha aqui, que são professores autônomos e as despesas da casa, que não são poucas. Consigo pagar as despesas do meu apartamento, mas antes eu nunca conseguia. Eu zerava e entrava em aplicação, pegava um dinheiro guardado pra poder suprir, então foram muitos anos de muito estresse. Quando eu me separei, eu quis me separar, eu sabia que ia perder uma proteção financeira que tinha quando casada. Então, sempre foi muito estressante. As pessoas falavam “mas fazer cerâmica é tão zen”, ai eu falava “depende, se vier fazer aula poder ser muito zen”.


A - E o que te deu ânimo pra continuar se era tanto estresse?

D - Então, eu acho que eu realmente gostava muito disso e não queria voltar pra medicina de forma nenhuma, aquilo não era pra mim. Até hoje as pessoas olham pra mim e falam “mas você não tem cara de médica, você não fala que nem médica”. Mas eu falava como médica, eu me lembro que eu levei uns 2 anos pra perder aquela forma de falar, uma coisa muito mais formal, muito mais elitista digamos assim. Agora eu não falo o português perfeito, eu abrevio tudo, já muda. Mas eu lembro que era uma coisa mais pomposa. Então foi muito interessante sair, olhar de fora. Na minha família todo mundo era médico: meu pai, a minha irmã, o ex-marido. Então, causou problemas. Minha irmã fica chocada até hoje, meu pai superou porque não tinha outro jeito, mas ele fala “se você estivesse na medicina não estaria passando dificuldades”.


Diane usando Regata Sabiá e Calça Minus

 

A - Você falou que dar aula veio mais de uma demanda do que uma vontade sua. Mas isso mudou?

D - Pois é, mas sabe que eu sempre gostei. Aconteceu porque alguém veio me pedir, e eu adorava o dia que tinha que dar aula, era um dia que eu encontrava as pessoas. E dar aula é um negócio incrível, pelo menos pra mim, eu me envolvo realmente com as pessoas, então era a hora de saber o que aconteceu com a filha de sei lá quem. A terapia que todo mundo fala que existe é muito mais que só mexer na argila, que já é terapêutico, mas é esse encontro. O encontro é uma coisa fundamental pro ser humano. Depois quando eu fui estudar antropologia eu vi que realmente faz todo o sentido. Vocês tem que ter as pessoas ao seu redor. É importante estar estável emocionalmente, ter o convívio social. Eu lembro daquele filme “Na Natureza Selvagem” do cara que foi pro Alasca e ele escreve no diário que a felicidade não existe se ela não for compartilhada, é a última cena. E é uma coisa que eu comecei a sentir aqui, o quanto era importante pra mim estar com esses alunos, conversar e criar uma vida. Eu tenho uma aluna, a Sônia, que tá aqui há 19 anos, então eu acompanhei a vida dela e ela acompanhou a minha, de uma forma intensa. É impossível você não criar um vínculo. Eu acho que o aluno te mostra também as coisas erradas com você, assim como você mostra as coisas erradas com ele.

As pessoas não aceitam que a peça rache, que é o que acontece sempre, que o esmalte não fique do jeito que a pessoa quer. Ela olha e fala “mas não era assim que eu queria”, ai eu falo “mas não é só o que você quer aqui”, porque tem a interferência de muitas outras coisas: física, química, como a queima foi feita. Como eu, eu sempre fui mega ultra perfeccionista. Eu vim de uma família de perfeccionistas, então eu refazia várias vezes uma peça que tinha que entregar, por mínimos detalhes, que hoje eu sei que não precisaria fazer. 


A - Você tem que aprender a perder o controle?

D - Sim, você tem que soltar. Isso foi importante pra mim, eu sempre fui muito controlada, minha educação foi super rígida, eu não podia sair da linha. Se eu combinei isso com você, eu morro, mas eu faço. Eu sou obrigada a ser multifacetada e conseguir tudo. Se me pedissem algo pra semana que vem, eu dava um jeito e fazia.


A - Até hoje você é assim?

D - Não, hoje não. Eu aprendi, demora, demora muito. Quando você tem um nível de rigidez do jeito que eu tinha, pra soltar e fazer tudo o que eu fiz, eu não sei como conseguia. Eu sempre fui diferente da minha família, eu tinha questionamentos a respeito de bom senso deles, de tudo. Eu tenho uma visão de mundo natural muito diferente da minha família inteira. Pra mim foi muito bom, me abriu o mundo da natureza de uma forma.

Eu só me sinto bem no meio do mato. Eu adoro o meio do mato. Se tiver gente por perto já me dá um pouco de aflição. 

Diane usando Vestido Poema


A - Você comentou que as aulas no ateliê proporcionam uma vivência real, fora das redes sociais. Você acha que os alunos também buscam isso? O que mais eles buscam?

D - Olha, eu tenho certeza que sim, mesmo que seja inconscientemente, porque com esses alunos que ficam mais tempo é formada uma relação. Não só deles com o processo da cerâmica, porque é uma coisa que vai crescendo, vai evoluindo na técnica deles, com no estar junto. Então a gente faz uma festinha aqui, vira e mexe a aula termina com vinho, champanhe, ou acaba a aula e “vamos fazer um almoço”. Tem uma coisa que vai muito além da cerâmica sem dúvida nenhuma. E sobre o que a gente está buscando, não tem só o fato de fazer a relação com as pessoas e aquilo ser gostoso, tem o fato de aprender a lidar com uma série de pessoas muito diferentes. Tem aluno que é fácil, aluno que é quieto, tem aluno que morre de rir de tudo e fica falando sem parar e tem aluno que tá com problema e é mais agressivo. Tem de tudo que você pode imaginar, é um mundo que vem aqui dentro. Atualmente, tem as pessoas que eu vejo que vêm só pra tirar foto, que querem fazer a aula pra fazer uma selfie no torno, elas querem publicar aquilo. A grande maioria tá interessada em mudar de profissão, em fazer uma coisa nova na vida, ou simplesmente ter um horário em que ela faça uma coisa que goste. Tem um monte de perfis, até o perfil de quem não quer fazer cerâmica e quer vir aqui. Mas eu acho que o aprendizado que o professor tem é impagável. Eu trabalhei muito tempo sozinha aqui, então esse convívio com as pessoa me fez aprender muitas coisas. Eu tinha aluno surdo, com Alzeimer, foi uma das alunas que eu mais aprendi. Uma senhora de 90 anos super artista gravurista, e ela me falou coisas, mostrou coisas sobre a cerâmica, sobre lidar com a cerâmica, que foi encantador. Eu dava aula pra ela, ela fazia a peça e discutia sobre aquilo. Foi incrível ouvir tudo que ela falou, muito rico. 


A - Dar aula te influenciou na sua criação pessoal?

D - Não, eu parei de criar pessoal, não existe mais isso. Agora estou em um processo de tentar voltar a fazer, porque eu vejo peças antigas minhas de 96, e penso “como eu conseguia sentar e fazer um negócio desse?”. Eu sinto muita falta.


A - Como é a estrutura do Terra W hoje?

D - Temos o curso livre com 3 professores: o João, a Tereza e a Camila, e tem o curso de formação, que a Sofia dá. Esse curso de formação eu inventei há uns 2 anos e meio, 3. Isso realmente mudou a entrada do ateliê. Foi justamente em um momento que percebi que os alunos faziam 1 mês de aula e já estavam vendendo na feirinha da Benedito Calixto. Eles não tinham ainda base de como fazer uma queima, um esmalte, não sabiam o que tinha na argila, o processo todo e já estavam vendendo como ceramista. Então eu inventei uma programação que desse conta de tudo que eu queria ensinar. E outra coisa, eu tô ficando velha. Eu aprendi tanta coisa no dia-a-dia e quero passar o que sei. E foi muito interessante, a reação das pessoas foi incrível. E Teve um retorno bem legal.

 

Capítulo 2 – A Arqueóloga Viajante
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Fotografia por Helena Wolfenson
Fotografado no espaço Terra W Estúdio