Mulheres Que Inspiram - Diane Cossermelli


Capítulo 2 – A Arqueóloga Viajante


Diane usando Blusa Asa Estampa Cacos

 

A - Você comentou que também estudou antropologia. De onde veio esse interesse?

D - Meu sonho de criança era fazer arqueologia. O meu pai comprava aquelas enciclopédias Life, que falavam de física, de química, e tinha a de arqueologia. A gente morava num apartamento na Av. Paulista. Eu acordava cedinho, sentava lá e ficava lendo. Eu ficava louca com aquelas coisas do Egito, de Pompéia, imagina escavar um lugar que foi coberto pela lava. O passado pra mim era muito interessante. AÍ quando eu fui prestar vestibular não tinha o curso, então eu falei “bom, então não vou fazer arqueologia”. Passou, mas eu sempre fiquei ligada com essa história do passado. Em 2003, eu já era mãe, eu estava pensando e me veio que eu queria entender por que eu tinha determinados comportamentos, instintos, por que eu fazia aquilo, por que a mãe tem que cuidar daquele jeito das crianças, e certamente tá ligado à evolução. Aí eu falei “eu tenho que fazer um curso de evolução humana pra me entender”. 

No começo do ano, eu fui fazer uma viagem de carro pelo Brasil em um jipe. Eu peguei o mapa do Brasil e escolhi um circuito que passava pela Chapada dos Veadeiros, Jalapão, Serra da Capivara, desci pela Bahia, Chapada Diamantina e voltaria pra São Paulo. Foi uma viagem absurda, era tudo terra e areia. Conhecemos as casas das pessoas, você entra e eles te dão café, incrível, na beira do rio. A gente parou em um lugar que o cara tinha um moinho de farinha, tinha o gado dele e era atrás de um rio gigante. Era precioso o lugar, lindíssimo. Então você começa a entender o povo do seu país. Foi uma coisa de contato. A gente foi ver aquelas moças que fazem o artesanato com capim dourado no Jalapão. Mateiros, a cidade que a gente ficou, era uma vila, tudo de terra, são uns 100km até chegar, tudo de terra vermelha, maravilhoso. Tem lugares de acesso bem difícil, só que a riqueza do que você encontra pelo caminho vale tudo, todo sacrifício de andar quilómetros e quilómetros. Não é pra qualquer um. É cansativo. São 700, 1000km por dia. Na Serra da Capivara, conversei com a Nièdi Guidon que organizou tudo ali. É um parque que eles cuidam muito. É impressionante o que ela fez, a estrutura pros animais. Ela fez umas piscinas pra juntar água, pra na época da seca eles terem como beber. Ela educou todo o povo em volta e colocou guardas mulheres pra defender o lugar dos caçadores. Uma delas foi morta inclusive. Ela contou todas as histórias de como funciona a região. Então foi um aprendizado incrível e eu queria por toda lei escavar. Aí eu falei “olha, quero fazer um estágio aqui com você”. Ela falou “tá bom, você tem casa e comida, você pode vim”. Aí eu falei “não, vou fazer uns cursos antes pra entender melhor” e ela “não precisa fazer curso antes, é só vir aqui e pronto”. Mas imagina se eu vou fazer alguma coisa sem estudar. Eu já fazia cerâmica sem ter feito curso de arte, o que pra mim era uma tragédia. Depois eu voltei para São Paulo. 

Vim pra cá, meu filho fazia biologia e eu comentei com ele que queria fazer um curso de evolução. Tinha uma matéria optativa no curso dele. Mandei um e-mail pro professor e perguntei se podia assistir como ouvinte ele aceitou desde que eu me comprometesse com todas as obrigações dos outros alunos. Tinha que fazer as provas, trabalhos e leitura. Tá bom. Era uma quinta-feira, lembro até hoje. Cheguei em casa e falei pros meus filhos “quinta de tarde esqueçam que a Mami existe, não tem mãe, não tem esposa”. Aquela foi a primeira vez, depois que eu tive meus filhos que eu reservei meio período do meu dia pra fazer uma coisa que eu queria. Eu nunca tinha um período só pra mim, era sempre era dividido com minhas atividades de motorista e de mãe que tem que atender. E ai, eu fiz esse curso de evolução humana, fiquei enlouquecida com aquilo porque eu consegui entender porque que a gente é nóia, porque as mulheres têm peito e bunda grande, e assim por diante. Eu aprendi muito. 

Num desses dias, eu fui no laboratório e tinha uma mesa cheia de fragmento de osso, esqueletos que eles escavavam. Fiquei mais alucinada e pedi um estágio no laboratório do professor. Comecei a trabalhar juntando os ossinhos, montando os crânios que era onde a gente estudava medidas, pra entender mais ou menos da onde vinham, se tinham características mais asiáticas ou não, e assim por diante. Aí, nesse ano em 2004, eles iam escava em Lagoa Santa, na Lapa do Santo. Eu fui junto e pronto, finalmente realizei o sonho de ficar lá com o pincelzinho escavando. Foi maravilhoso, eu fiquei encantada com aquilo. E até hoje eu vou. Eu escavei uma vez no Peruaçu, no norte de Minas. Uma cidade no limite com a Bahia e é um parque maravilhoso, vocês têm que ir. Uma coisa inacreditável. E a gente achou um sítio arqueológico mais recente de uns 4mil anos. Eu lembro que a gente achou uma agulha de madeira entalhada. Você fica imaginando as pessoas costurando uma roupa com aquilo. É incrível você pensar e nunca ter certeza do que realmente era.

Espaço Terra W Estúdio


A - Mas como se descobre um lugar em potencial pra ser um sítio arqueológico?

D - O pessoal que trabalha na lavoura ou gado pisoteando o solo às vezes expõe alguma coisa, eles notificam, avisam, e às vezes é um mero acaso. Tem lugares que você suspeita que tenha, pelo jeito. Olha, a gente escavava, por exemplo, em uma lapa, uma boca de caverna, então é aberto e os esqueletos estão todos na boca da caverna. Dentro você encontra o que a gente chama de oficinas de lítico, onde as pessoas ficavam fazendo lâminas, batendo pedra com pedra pra fazer as lâminas pra cortar, tirar a carne do bicho, cortar fibras pra fazer roupa, cortar coisa de árvore. E nos mais recentes tem as oficinas de cerâmicas.

Nesse sítio tem vários tipos de enterramento, tem corpos inteiros, que são os corpos primários. Você acha a pessoa na posição que ela foi enterrada e tem uns que são uma mistureba. Teve uma vez que a gente encontrou um crânio de um adulto, cheio de osso de criança dentro. Esse é um enterramento secundário. Tem um que é só a cabeça com duas mãos (cada uma em uma direção). Não se sabe quem era, se eram inimigos, bandidos, sei lá, mas eles enterraram assim. Tem um colega nosso professor do laboratório que tá fazendo um estudo desses diversos tipos de enterramento. Você fica pensando como vivia essa pessoa, o que ela fazia, se ela era deprimida.

A pré-história se define assim, porque você não tem nenhum documento, você vai ter documento quando começam as civilizações e a escrita, mas antes disso é só suposição.

Por exemplo, tem tribos indígenas atuais que dizem que esses símbolos que eles pintam querem dizer tal coisa, porque foi passado culturalmente por inúmeras gerações. Então você tem dicas, você não sabe se as suposições são corretas, podem ser, mas você nunca tem certeza. Pra mim isso é muito fascinante.


 

A - A arqueologia influencia o seu trabalho com a cerâmica?

D - No começo, sem ter tido esses estudos em arqueologia, eu fazia desenho indígena em peças. Eu fiz 2 cursos no MAE, um de cerâmica arqueológica e um de lamparinas romanas. Um eu fiz com a professora que estudava etnografia, cestarias, esses desenhos que eles faziam em potes e eu fiquei louca. Usei muito isso no começo, depois parei de fazer essa parte. Comecei a escrever em vasos e a escrever sensações que eu tive quando fui pra Chapada Diamantina, porque foi lá que eu fiz um passeio bem no meio do mato pela primeira vez e aquilo pra mim foi chocante. Eu não acredito até hoje naquelas pedras, é muito intenso, a água numa cor de conhaque, era uma coisa completamente diferente de tudo que eu já tinha visto. Tem os poços com aquela luz azul, a luz do sol que entra pelo meio da caverna é um negócio que você fica chocado. Quando eu voltei de lá não sabia o que tava acontecendo comigo, aquilo foi um choque, eu não queria falar com ninguém, tava absorvida. Eu senti que eu era pedra, senti que eu era parte daquilo, foi muito louco.

A gente visitou uma caverna que tinha acabado de ser aberta pro público. Eram umas imensidões dentro do buraco. Dava pra ver as marcas de um rio que existiu lá, marcas da erosão da água. Tinham uns salões que o teto tava inteiro desmoronado, mas era um salão de uns 300 mts de largura sem pilar, um espaço aberto maior que o MASP. Eu cheguei à conclusão que São Paulo é um cenário, eu não vejo horizonte, eu não sei como é o chão, é tudo cimento, coberto.

E lá é uma imensidão, as pedras são velhas, construída em milhões de anos. Tem lugares lá onde a pedra faz um “Z”, a pedra foi dobrada, então você não consegue imaginar a violência daquilo, pra dobrar uma pedra daquele jeito, como pode um negócio desse?. A violência do planeta é uma coisa assustadora. E aquilo foi visível pra mim. Nessa caverna, a gente tava a 60 mts abaixo da superfície. Eu lembro que eram 15 pessoas no meu grupo. Eu tava com a Luísa no colo, ela era pequena tinha 7 anos. Aí eles apagam a luz e você não via nem ouvia nada. A gente ficou um tempo naquele escuro e eu comecei a sentir o silêncio em mim, parecia que aquilo tava grudado no meu corpo. Então foi uma experiência que eu não tive mais em lugar nenhum. Eu tive alguma coisa lá realmente, que fez eu me conectar com a terra, com a árvore, com tudo que você pode imaginar da natureza. Tanto é que depois disso eu não consegui mais viajar pra cidades, eu viajo pro meio do mato. Pra mim viagem é andar na terra, fazer trilhas, olhar planta, ver bicho diferente.


Diane usando Macacão Vento

A - A sua última viagem foi pro meio do mato?

D - Fiz outra dessas circulares pelo Brasil, que foi mais longa, pra uns lugares que eu nunca tinha ido e queria conhecer. Eu comecei também pela Chapada dos Veadeiros, mas não parei lá, fiquei em Cavalcante, fui pro Jalapão, depois pra Palmas, porque eu queria entrar no Maranhãos pra conhecer a Chapada das Mesas. Tinha um lugar perto de Riachão que é incrível, eu fiquei abismada, tinha um poço de cachoeira que dava pra nadar, uma água verde linda transparente completamente. Então são coisas que pra gente que vive em são Paulo é muito louco, porque no máximo a gente vai pra umas cachoeiras que não são transparentes, elas têm algo dentro flutuando. Lá, como são rios e cachoeiras com base de calcário, aquilo é filtrado. No Jalapão tem o rio formiga que é inacreditável, é completamente transparente, a água é azul, um choque pra gente. Tem os fervedouros que são aquelas brotas de água que saem de dentro da terra, formam os lagos, a areia fica circulando, borbulhando no meio do lago. Você não afunda, porque aquela água te joga pra cima, e a areia bate na sua perna, é incrível. Lá no Jalapão tem uns 8.


A - Você vai com guia nessas viagens?

D - Não, só nos lugares obrigatórios, porque a gente já tem uma experiência legal. Eu porque desde os anos 90 e poucos já comecei a viajar pelo mato e o Rodrigo também é assim. Eu encontrei uma pessoa que adora ficar no meio do mato, adora arqueologia, inclusive eu conheci ele no laboratório, ele foi meu estagiário, eu entrei, depois de um tempo ele entrou. Ele ainda trabalha lá, eu que já estou fora. A gente gosta das mesmas coisas, entra em museus, tirar foto, aquela coisa bem par, engraçado. Daí eu continuei: Maranhão, subi Teresina, delta do Parnaíba, depois entramos pro Ceará. Fomos pra Tatajuba encontrar o meu genro. Descemos pro Crato, interior do Ceará, depois sertão do Carari e Chapada do Araripe. Foi muito engraçado porque coincidentemente a gente viu muita coisa de arqueologia. Em Santana do Cariri tem um museu de fósseis. É o lugar com mais fósseis de pterodáctilos, tem de peixes, libélula, escorpião, pulga, tudo que você puder imaginar de 110 milhões de anos. E tem os dinossauros que encontraram nessa região. Então Santana do Cariri tem 2 praças, é super pequeno, mas tem um museu de fósseis com monitores. Do lado de Uberaba, em uma estação de trem, também tem um museu de dinossauros com modelos do tamanho natural, jacarés, super bem montado. A gente não faz ideia de toda a riqueza que tem. Me surpreende que com os poucos recursos que são dados pra cultura você tenha lugares assim. Então é briga mesmo. Um professor falou “vamos fazer”, conseguiu verba não sei da onde pra poder montar uma estrutura daquela. Depois a gente foi outra cidadezinha, Nova Olinda, onde tem o Espedito Seleiro que faz todas aquelas coisas em couro. Tem um centro social que chama Casa Grande que cuida das crianças da região, que ensina ofícios, então a gente viu cidades muito legais. A gente foi pra Paraíba vimos o Lajedo do Pai Mateus que é alucinante. Campina Grande depois Maceió, passei em Marechal Deodoro, encontrei uma das alunas do curso de formação que mora lá, e já tem um ateliê. Eu queria muito passar lá, foi muito legal.


A - Você acha que essa vivência influenciou os seus filhos a, por exemplo, escolher profissão? Alguém foi pelo lado tradicional da família?

D - Não, e eu fiz campanha, posso dizer que não fui uma mãe muito neutra (risos), mas nenhum quis fazer. A Luísa quis fazer medicina veterinária porque ela gosta de bicho, mas eu expliquei que ela ia encontrar os bichos todos doentes, aí ela desistiu. O bruno é biólogo. Ele é um super pesquisador, mora fora, fez o doutorado e tá fazendo o pós-doutorado fora. Eu espero que a situação aqui melhore pra ele voltar, porque do jeito que tá, não rola. O Gustavo é músico e a Luísa é psicóloga, ela também tem um lance com arte. Mas nenhum deles fazia cerâmica. Muito engraçado, os amigos quando vinham aqui queriam ir pro ateliê fazer, mas eles nunca deram muita pelota, fizeram uma canequinha assim e só. Mas eles têm a minha forma de ver o mundo, em termos de valorizar um verde, as coisas naturais. O Bruno e a Luísa gostam mais de viajar, o Gustavo já encara menos uma estrada, mas ele já tem um pensamento mais simples de valorizar as coisas pequenas, acho que todos eles são assim. É muito o meu jeito de olhar, uma coisa menos ambiciosa, gananciosa.

 

Leia o Capítulo 3 – A Mulher
 

Fotografia por Helena Wolfenson
Fotografado no espaço Terra W Estúdio