Mulheres Que Inspiram - Cristiana Bei



É com muita alegria que iniciamos um novo projeto da Acolá, chamado Mulheres que Inspiram, no qual entrevistaremos mulheres que admiramos e que de alguma forma se aproximam do nosso universo e da nossa maneira de fazer as coisas do dia-a-dia.

A primeira convidada desse projeto é a Cristiana Bei, uma das nossas parceiras aqui na loja há mais ou menos dois anos. Ela é a criadora por trás da Bei Metais, aquela marca de joias contemporâneas feitas em prata e latão, que nós amamos. O que pouca gente sabe é que é ela que faz tudo! Peça por peça é feita à mão no espaço que ela trabalha na Vila Madalena, o Atelier Lucas Shirts.

A Cris é daquelas pessoas que tem uma energia contagiante. Quase sempre ela chega na loja de bicicleta com sua gargalhada gostosa, seu bom humor e usando várias peças que acabou de fazer! Esperamos que você se inspire com nosso bate-papo sobre a Cris e a Bei Metais.



A - Como a joalheria surgiu na sua vida?

C - Eu sempre curti e usei muito acessórios. Um grande barato, que me lembro de pequena, era o de fuçar os acessórios da minha mãe e das minhas avós (família cheia de mulheres) e ficar experimentando, pensando em que situações usaria aquelas coisas. E a resposta era quase nunca. E desde que faço minhas próprias peças, percebi, que a questão é justamente usar muito. Usar bem aquilo que gostamos e que nos faz sentido, pois por muito tempo eu achava que essas coisas tinham que ser poupadas e só usadas em eventos especiais, ou melhor, específicos. Mas a graça está em poder usar toda hora e acho que isso diz respeito diretamente à escolha pelo metal, pois ele não acaba, não gasta ou se decompõe. Metal tem permanência no tempo.

A joalheria se tornou mais visível para mim quando, numa viagem pela Ásia, vi mulheres de diferentes povos usarem suas próprias criações. Todas ligadas à cultura e a uma estética tradicional do lugar. Nos museus eu via as criações de centenas de anos atrás e nas ruas, as atuais. Aquilo me chamou muito a atenção e ao voltar para o Brasil eu tive a maior vontade de experimentar esse processo criativo. Minha intenção era tentar fazer coisas parecidas com aquelas que eu havia visto, talvez um tanto na vontade de saber como era esse fazer e outro tanto por querer ter tudo aquilo, uma vontade enorme de usar aquelas peças, como amuletos que carregam em suas formas uma simplicidade enorme ao mesmo tempo, uma estética tão bela. O que me encanta é que na simplicidade mora a riqueza daquelas formas. E é exatamente isso que eu tento fazer com as minhas peças.


A - Qual a parte do trabalho que você mais gosta?

C - Eu gosto de tudo. Se fizer muito de uma etapa só, eu acho cansativo. São tantos processos e tão distintos entre si que o equilíbrio entre eles me acalma, por isso costumo ter várias peças sendo feitas ao mesmo tempo, cada uma num estágio. As etapas são: fundição (que é a preparação do metal), a laminação ou fiação, a criação da peça, recorte, solda das partes, e por fim, lixar, polir e limpar. A parte que eu menos gosto é o polimento, que é a etapa final, porque é um momento em que a peça já esta pronta, você consegue ver como ela ficou, mas ainda falta dar o toque final, que faz toda diferença, mas eu já estou impaciente para poder sair usando a peça rsrsrsrs.

Do processo todo, o que mais me encanta e é onde mora certa “adrenalina” para mim é a parte de criar a peça na cabeça (pois raramente eu desenho, é um processo bem de imaginação) e de ver as partes meio prontas para soldar ou já soldadas, pois é ali que vejo se aquelas formas juntas ou naquela posição “funcionam” ou não. Quando vejo alguma coisa que eu penso na hora que ficaria bacana num pingente, brinco ou anel, aquilo me dá uma emoção, uma vontade de sentar na bancada na hora e começar a fazer. É a parte em que se concretiza algo quase etéreo que me pega mais.



A - Como é seu processo criativo? De onde vem suas inspirações?

C - Vem de tudo a minha volta, tudo que é palpável. Desde arquitetura, construções, natureza, fotografia, pinturas, desenhos. Sou uma pessoa que olha muito, reparo em detalhes, gosto de estampa, de formas geométricas.... isso tudo acaba atravessando meu trabalho. Mas sempre busco a simplificação, pois o que é mais direto me parece de uma leitura mais fluída.

A partir de um filtro que eu sinto que aplico sobre tudo o que são imagens de referência para mim, eu consigo pensar em algum tipo de peça, seja anel, pingente ou brinco . E agora que estou gostando muito de pensar em objetos para a casa também, o que abre um mundo vasto e novo, pois eles são descolados do nosso corpo, são um novo corpo, que habita o espaço.

Eu acho que os pingentes são sempre minha primeira ideia, pois eles são pequenos objetos que podem ser carregados no peito, levados no corpo. Acho que isso faz sentido no contexto materialista e de apego que vivemos, da mesma forma que também acho curioso como nos relacionamos com o que compramos e que usamos. E também a dependência que temos de algumas coisas, nesse caso gosto de ver as peças como amuletos, como pequenas amostras de imagens que nos remetem a coisas ancestrais sem sabermos exatamente ao quê.


A - Porque o latão é tão presente no seu trabalho?

C - Eu gosto da cor, da forma como ele oxida, se transforma e vira outra cor, outro brilho, outra textura. Elementos intervêm e afetam o latão, sem conseguirmos controlar ou saber como vai ficar. A prata se mantém um pouco mais uniforme, prateada e brilhante.

O latão também é um metal barato, o que eu acho extremamente atraente. Pois fazer joalheria é muito caro e inacessível para muita gente comprar, justamente porque o processo de realização é longo, extenso e tem alto custo. Busco sair do padrão da joalheria, que só reconhece prata, ouro, platina como metais nobres, dentro do contexto que vivemos, acho isso pobre e restrito.



A - Conta pra gente um pouquinho da sua trajetória até aqui...

C - Demorei para entender a interferência da minha formação em artes plásticas na minha produção. Difícil falar em produção quando é algo em tão pequena escala né!? Mas é assim que se tornou possível e viável no meu cotidiano.

Estudei artes visuais e trabalho com educação desde os 16 anos. Minha primeira escolha foi fazer licenciatura, pois já dava aulas e achei prática e interessante essa opção. Durante a faculdade trabalhei em exposições e experimentei diferentes formas de criação: desenho, pintura, gravura, escultura, vídeo..., mas nada me pegou a ponto de permanecer por um tempo longo, investir. Trabalhar com educação tem um lance que é sobre os efeitos, resultados e afetos que ela causa. Educação reverbera, mostra a que veio, transforma e engrandece as pessoas. E trabalhando em exposições eu acabei presenciando muito a arte distante do público, precisando de intervenção e de muita conversa sobre o que se via para provocar alguma coisa. Claro que há muitas exceções, há diferentes tipos de arte e de se fruir arte. Mas dentro do contexto que eu vinha, de aulas de arte para a EJA (educação de jovens e adultos) e de mostras de arte contemporânea (Fundação Bienal de SP e Instituto Tomie Ohtake), a arte contemporânea era difícil de ser digerida e o público se sentia ignorante ou incapaz diante de muitas obras.

Fiz também Bacharelado em Artes Visuais. Mas foi só depois de dois anos que terminei esta formação que eu sai do trabalho em que estava e fui ficar três meses viajando pela Ásia. A ideia era entrar em contato com outras culturas bem diferente da nossa. De fato aconteceu.

Voltei em 2014 e fui experimentar a joalheria. Já no primeiro mês eu estava gamada, não querendo parar. E foi o trabalho como professora que permitiu financeiramente que eu experimentasse a joalheria sem precisar ter um retorno financeiro imediato. Dar aulas em paralelo é uma possibilidade de fazer algo coletivo, pois a criação no ateliê , para mim, é bastante solitária e um processo bem individual.



A - Você tem um(a) artista preferido(a)? O que você admira neles?

C - Gosto de vários. Mas mais forte, que me vem a mente é a Louise Bourgeois. Admiro seu processo de criação, suas obras, seu percurso. A maneira como ela dá forma, verbaliza, expõe suas questões.


A - Quem você gostaria de ver usando Bei?

C - Vera Holtz, porque admiro as várias facetas que ela expõe ao mundo. E acho que as peças combinam com ela. E a Patti Smith, porque gosto demais do que ela escreve – posso imaginar que deva ser uma pessoa maravilhosa de se conhecer – mas ela não usa adereços acho.... pelo que contou em um livro, até usa, mas pouquíssimo e que se relacionem com histórias, acontecimentos... E gostaria de poder dar para todo mundo que gosta e que quisesse usar.


A - Você acha que dar aula de artes para crianças influencia no seu trabalho com as jóias? Se sim, como?

C - Demais. Os desenhos das crianças têm uma objetividade, linhas diretas, elas sabem olhar e o filtro do corpo que ainda não se acostumou com o material e também com o domínio do próprio gesto. Já fiz desenho de aluno virar pingente.

Quando eles usam materiais que não estão tão acostumados e que têm menos controle sobre, por exemplo tinta nanquim, eles criam com mais liberdade e sem se preocupar com aquela ideia pré-concebida com as quais os adultos acabam os contaminando, e aí coisas fantásticas surgem e povoam as aulas. Já fotografei muitos desenhos com a intenção de torná-los joias. E tenho esse projeto com uma amiga. Mas mesmo sem usar o desenho deles diretamente, acompanhar a maneira com a qual eles se relacionam com os próprios desenhos, o que enxergam, como descrevem, vai mudando a maneira como vejo as coisas. O cuidado que eles têm com cada traço, a justificativa do porque aquele traço existe e o que é... e a exploração do corpo no desenho, o desenho como corpo, como realidade, quase como certa mágica. Não acho fácil explicar, mas o desenho deles ainda é bastante linhas, sem volume, sem luz e sombra, proporção, o figurativo ainda beira a abstração em muitos casos, então também acho que conversa muito com a minha intenção nas formas das minhas peças.




A - Cris, você sempre está passando de bike pelos lugares, então me responde essa: andar de bike é bom por quê....?

C - Te faz viver a cidade de outra forma, acorda o corpo, dá dinâmica para o cotidiano, te mantém atento, podendo transitar entre os lugares com mais liberdade. Sem se afetar pelo trânsito, pelo estresse de carros, ônibus, vagas, planejamento com horários... e você chega nos lugares com mais energia, me faz sentir viva e bem disposta.


A - O que você gosta de fazer quando está em São Paulo? Tem alguma dica?

C - Eventos ao ar livre e gratuitos, parque, praças, comer. Exposições e filmes. Encontrar as pessoas sentar e tomar cerveja. Cozinhar junto.


A - O que você gosta na Acolá?

C - Admiro a forma como vocês trabalham, as parcerias, a credibilidade que dão para as pessoas com quem trabalham. A pesquisa de materiais, sobre os artistas, o processo longo de desenvolvimento das coleções. A rede de contato que ativam com o trabalho. O fato de valorizarem a produção em uma escala menor e mais lenta, pensando na sustentabilidade, numa maneira mais saudável de consumir, a durabilidade e qualidade das roupas. Além dos modelos e estampas né! <3

Conheça as peças Bei Metais para Acolá aqui!



______

Fotos: Helena Wolfenson
Agradecimento: Atelier Lucas Shirts